Morada Nova: a semente da irrigação no Nordeste

O primeiro perímetro irrigado do Ceará transformou vidas, terras e a história da região do Banabuiú

Quando os primeiros colonos chegaram ao Setor 1 do Perímetro Irrigado Morada Nova, em 1970, traziam na bagagem mais do que enxadas e sonhos. Eles vinham de uma terra que já conheciam, agora transformada. Muitos haviam sido reassentados após a desapropriação realizada pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) no final da década de 1960, saindo da condição de trabalhadores arrendatários ou meeiros para se tornarem protagonistas de uma nova etapa do desenvolvimento agrícola do Ceará.

A história do Perímetro Irrigado Morada Nova é a história de um marco, conforme mostram os estudos de Elisângela Sousa para a Universidade Estadual do Ceará. Pioneiro no Nordeste e no Ceará, o projeto nasceu da colaboração entre o Brasil e a França, com o nome original de “Projeto de Irrigação na Zona de Transição Sul de Morada Nova”. Em 1969, a Societé Central pour L’equipement du Territoire elaborou o projeto executivo, que logo começou a sair do papel pelas mãos do DNOCS.

À jusante do açude Banabuiú, a paisagem começou a mudar: matas nativas deram lugar a canais de irrigação, loteamentos agrícolas e toda a infraestrutura necessária para um novo modelo de produção e vida. O projeto não envolveu apenas obras hidráulicas, mas uma verdadeira reconfiguração do território: eletrificação, abastecimento d’água, saneamento, estradas, centros comunitários, escolas, postos de saúde e casas para os colonos..

Na época, foram investidos cerca de 73 milhões de dólares no projeto, o que resultou na construção de um sistema robusto e planejado em três etapas. O canal principal, com 26km e 14 comportas automáticas importadas da França, é apenas uma amostra da grandiosidade da obra. No total, a construção do Perímetro somou mais de 400km de canais, 243km de estradas terciárias, 12 núcleos habitacionais e 12 escolas, construídas para garantir o acesso à educação das famílias assentadas.

Inicialmente, o perímetro foi projetado para acomodar 587 colonos em uma área de 11 mil hectares. Destes, cerca de 3.737 hectares foram efetivamente irrigados. A maioria dos beneficiários era formada por antigos moradores da região, vazanteiros, pequenos proprietários e trabalhadores rurais que encontraram no perímetro uma oportunidade de estabilidade e autonomia produtiva.

A implantação do Perímetro Irrigado Morada Nova alterou profundamente a dinâmica econômica e social da região. O que antes era uma economia baseada na pecuária extensiva e na extração da carnaúba, passou a incluir a produção irrigada, diversificada e com maior valor agregado. Com isso, o projeto impulsionou o desenvolvimento de Morada Nova e Limoeiro do Norte, transformando o perfil produtivo local e regional.

Hoje, ao olharmos para essa história, vemos mais do que números e canais: vemos pessoas, comunidades e um novo jeito de viver e produzir no sertão cearense.

Fonte: https://www.gov.br/dnocs/pt-br/assuntos/noticias/morada-nova-a-semente-da-irrigacao-no-nordeste